Amor burguês

21:13

Havemos de engordar juntos.


Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

Nós acreditávamos.

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.


José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)

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14 comentários

  1. Ainda me ri a ler isto porque me revejo em tanta coisa e não tenho vergonha de o dizer lol somos portugueses.

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  2. Adorei o pequeno texto que me mostraste :) e ora aqui está o meu autor preferido de momento... José Luís Peixoto. É qualquer coisa de especial este homem não achas? :)

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  3. Obrigada pelas dicas, vou mesmo tentar seguir. Já comecei pelo chá (que não é esse mas é um que parece ser próprio para esta situação, chama-se "noite tranquila" e é da Lipton) Esperemos que resulte (:

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  4. Ohh gostei imenso.
    estou a morar à uns meses com o meu namorado e acho que sinto qualquer coisa naquela descrição!... há uma magia de cumplicidade que se revela instintivamente ao ensacar as compras! é tão estranho como verdade! xD


    beijinho grande, obrigada por partilhares!:)****
    sara, chips-ina-fishbowl.blogspot.com

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    1. Por vezes são as coisas mais simples, mais rotineiras, que marcam mais :)
      Espero que vocês "engordem" juntos sempre!
      (Pelo significado que tem, esta agora é para mim uma das frases mais românticas :) )
      Beijinhos

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  5. Adorei, a magia das coisas simples mas do mais verdadeiro que pode existir. Nunca li nada do autor, mas este texto deixou-me muito tentada ;)

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  6. Não conhecia e gostei muito deste texto de José Luís Peixoto :) «Havemos de engordar juntos» é realmente uma frase fantástica.

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    1. Ele é um grande escritor e uma pessoa muito simpática :)

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  7. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  8. Eu neste momento estou a ler uma casa na escuridão, e estou a adorar, mas é um livro que requer um tanto de concentração :) e amei o Morreste-me que ele escreveu para o pai, é muito profundo! Aconselho ;)

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